Perito Prof. Sebastião Edison Cinelli

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Estudo constitutivo dos traços


Todos nós conhecemos que a ação ou o ato de lançar, escrever um manuscrito é um ato motor; o traço, o grama é o resultado desta Ação, assim vemos que ele é de uma forma ou outra, o registro permanente e fiel dele, permitindo seu estilo.

Condição imposta àquela ação.


1 - Pelo material - quando se escreve deixa-se um traço ou um conjunto de traços em um suporte, apoiado sobre um ambiente, escrivaninha, carteira, balcão, etc munido com um instrumento escrevente, lápis caneta e outros e, de acordo com certas condições, são obtidas execuções que apresentam entre si diferenças que não podem deixar de serem observadas; a transformação da escrita é muito mais considerável em se tratando de escrever sobre uma superfície vertical (lousa -quadro negro e apoiar o papel). Apesar de evidentes diferenças de grafismos, observamos constantes individuais;


2 - Pelo sistema de símbolos utilizados e as leis de sua organização no espaço gráfico.

Nas análises deve-se sempre levar em conta os problemas que podem existir quando nos deparamos com letras isoladas, como no formato da letra de (forma) ou escritas em cursivo, encadeadas ou complexas, devemos também nos ater aos sinais diacríticos, pontuações, etc.


3- Aspectos caligráficos que prescrevem a execução dos sinais de acordo com certas normas de qualidade.

Exemplo - as letras dos sinais orientais que cultivam pela flexibilidade do traço, ficando assim sobre o ato de escrever todas as espécies de sujeições que impõem seus meios ao desenvolvimento.

Vemos assim, que essas sujeições vão mostrar como o gesto gráfico ali ficará como que marcado, e que como o próprio traço, resultante do gesto, testemunha-o do mesmo modo. Mas, os obstáculos não bastam para explicar a gênese do grafismo, aqueles só definem apenas seu ambiente e condições.Sabemos que para o desenvolvimento do grafismo existem dois fatores: exercício e o desenvolvimento motor.


1 - No exercício - guiar o Ser humano e acelerar o desenvolvimento do ato de escrever.

2 - No desenvolvimento motor - não se deve simplesmente à acumulação do exercício, prova disso é que os adultos que aprendem a escrever atingem quase que de repente um melhor nível gráfico, do que o atingido por uma criança em diversos anos.

É certo também que , com muitas outras atividades, a escrita reflete o nível de desenvolvimento motor da pessoa que escreve. Como a criança é o produto de uma atividade psicomotora extremamente complexa, vamos ver quais fatores contribuem para a motricidade, assim:


a) maturação geral do sistema nervoso mantida pelo conjunto de exercícios motores;
b) coordenação de movimentos e

c) desenvolvimento em nível das atividades finas dos dedos e da mão.

Assim, todas as atividades de manipulação e todos os exercícios da habilidade digital fina contribuem neste sentido para o crescimento da escrita. Como vocês então já conhecem vamos nos deparar com as três grandes etapas - pré-caligráfica - incapaz a despeito do esforço; caligráfica infantil onde a escrita é lenta , e pós caligráfica a escrita adulta, madura, já formada.

Estes entendimentos são importantes, para a posteriori começar a conhecer o Estudo Constitutivo dos Traços, para preparação das análises dos grafismos e oferecer a quem de direito as indagações atinentes à cadeira. Primeiro conhecer, depois periciar, e não somente periciar ao bel prazer.


Nunca é demais lembrar.


A formação de um traço, de vários e qualquer traço é o resultado de duas forças, não é verdade, a Vertical e a Lateral. Senão Vejamos.

Com a força Vertical iremos pressionar o Instrumento contra o suporte, motivando então a Pressão, lembram-se? Dessa Pressão iremos produzir o menor traço que é o ponto.

Para então produzirmos o Traço haveremos de movimentar a Força Lateral - que poderemos denominar Progressão ou Projeção - que nada mais é que a Força que impele e faz deslocar o instrumento escritor na elaboração de um escrito e sem o qual o grafismo produzido não passaria de um simples ponto.

Então a análise de um conjunto de gramas que dão origem a um escrito revela variação na tonalidade e espessura dos traços, o que, em Grafoscopia, se chama claro-escuro.


Como então as duas forças encontram-se intimamente combinadas, atuando em relação de causa e efeito, podemos então dizer que, quando aumenta a intensidade da Pressão sobre o suporte, sobre o papel, diminui a progressão, a velocidade, a projeção; idem no sentido inverso, isto pelo fato, da força de Pressão agindo contra o suporte, provoca uma maior ou menor resistência ao avanço, determinado pelo atrito entre o instrumento (a caneta) e o papel; assim quanto maior a pressão, maior será o atrito, sobre o suporte e conseqüentemente mais lento o deslocamento traduzido pela outra força que atua lateralmente , a PROGRESSÃO, a VELOCIDADE.


As variações de Pressão/Velocidade-Progressão que resultam no aparecimento dos claros-escuros tornam-se mais evidentes na medida que o escritor, através do exercício, melhora sua habilidade para executar, isto nos mostrou José Del Picchia Filho , Antonio Caponi (in memoriam) nossos mestres de outrora, sem dúvida.

O estudo então da DINÂMICA de um grafismo consiste em que? Consiste na determinação da força que foi empregada com maior intensidade, através da observação da tonalidade e da espessura dos traços. Ao examinar a DINÂMICA das assinaturas, dos escritos, deve o expert realizar, inicialmente, um levantamento de dados, observando o início do traço (o ataque) e o seu fim (o remate) do grafismo e as variações contidas a cada passo.


Constatada a ocorrência de um traço espesso e de tonalidade escura pode-se concluir que a intensidade de Pressão foi superior à da PROGRESSÃO/VELOCIDADE, ou seja PASSAGEM OU TRECHO COM O COMANDO DA PRESSÃO. Quando o traço apresenta-se delgado e com tonalidade clara pode-se concluir que a intensidade da PROGRESSÃO/VELOCIDADE foi superior à da PRESSÃO, ou seja PASSAGEM OU TRECHO COM O COMANDO DA PROGRESSÃO.


O normal é que o mesmo escritor, em condições normais de execução, deixe registrado em seu grafismo espontâneo os mesmos comandos dinâmicos nas mesmas passagens, assim como a intensidade da força empregada naquela passagem tende a ser a mesma.


Porque então caros amigos estas pinceladas de "remember"; se relembrar é viver, então vamos viver e relembrar, vamos aguçar nosso aprendizado; aliás somos eternos aprendizes, e cada dia que passa é um novo aprendizado, face as mutações nos dias de hoje nas mais variadas formas. Fico feliz e grato pelo, convite formalizado pelo nobre e distinto colega e diretor, Dr. Toscano, pela oportunidade que me ofereceu para conversar um pouco com vocês.


Assim,


a Dinâmica, assim como os Estudos da Gênese Gráfica é muito importante para nossos misteres, pois ela consiste essencialmente, em observar com profundidade a constituição e o desenvolvimento da escrita.


Este exame, estuda e analisa a manifestação gráfica a partir de suas causas geradoras, as formações, desenvolvimentos e constituições dos traços.

Não é fácil conceituá-la, uma vez que ela representa a imagem ideal e reflete o senso estético do escritor. Disse-me em certa ocasião, uma expert quando indagaram-na o que lhe representava a "GÊNESE GRÁFICA" , como resposta, obtive que " gênese, seria, seria, assim, gênese é, é, é a prática, é aquilo que, é a prática mestre, é a prática".

Vejo que, para estudar todos enfoques que estou oferendo a vocês, teremos então que conhecer, de plano, diferentes tipos de traços, que os mais variados instrumentos escreventes oferecem , que representa a meu ver, os primeiros passos para o conhecimento. Necessário se faz conhecer as constituições dos traços de cada um deles, quando surgem no mercado.


Interessante notar, que muito poucos que procuram apreciar a Grafoscopia, não se dão a estudar com afinco os estudos constitutivos dos traços nas mais variadas espécies e, muito menos conhecê-los.


A identificação do tipo de instrumento escrevente utilizado para a confecção de um traço, de uma escrita ou de assinatura é de real valia para o expert em grafotecnia; quando da colheita de materiais gráficos para estudos e cotejos, haveremos de conhecer primeiro que tipo de instrumento fora utilizado para confecção daquilo que se está questionando.


Não basta somente conferir uma assinatura, a apreciação tem de ser global.

Os traços, lembrem-se meus senhores, podem se apresentar sob uma gama de formas: os mais importantes - quando retos, denominamos retilíneos, quando curvos, curvilíneos.

As curvas, ascendentes e descendente mostram-se sob a forma de arcos à direita ou à esquerda.

Se por ventura as curvas apresentarem-se no sentido da velocidade, da progressão, denominam-s0e desenvolvimentos em arcadas (formando arcos) ou guirlandas (com formações em forma de us) ; podem ainda serem espiraladas ou onduladas; temos ainda traços oscilantes ou indecisos.


Quando o círculo se fecha denominamos circulares.


Os traços cheios são também conhecidos como "pleins" , os finos "déliés" no que diz respeito as suas espessuras.


Assim, os cheios são os que sofreram forte pressão, ou correspondem as larguras dos bicos das penas; finos, àqueles que mal tocam o suporte ou quando uma das farpas da pena repassa o sulco feito pela outra.


Um mesmo traço pode possuir pleins e déliés, que aliás só assim são referidos nos traços curvilíneos.


Aspecto de um traço a pena e tinta


- Quando examinado com lupas de razoável aumento ( 20x , 30x) , veremos que os bordos apresentar-se-ão irregulares, com reentrâncias e saliências, ora arredondadas, ora em ângulos. Essas expansões laterais de tinta recebem a denominação de serrilhados ou dentilhados.

Esses aspectos originam-se da expansão da tinta, que se faz de modo irregular, em conseqüência da absorção irregular do papel suporte.

Esses detalhes ainda podem sofrer influência em virtude da maior velocidade motora e da consistência da tinta e das condições do próprio instrumento escrevente.


Traços produzidos com pena de caneta tinteiro


- São variados, dependendo sempre do tipo de pena utilizada. Os traços dessas canetas normalmente são reconhecidos pela qualidade dos déliés (traços finos).
- As linhas que produzem são relativamente grossas, de bordos pouco nítidos, são raros os meniscos, que seria uma deposição de tinta (posição baixa da pena, velocidade do escritor, natureza do papel suporte que é um fenômeno análogo ao da capilaridade). As penas novas de hoje em dia, pouco marcam as foulages , (formações de sulcos) .


Traços produzidos com caneta do tipo esferográfica


- A ponta é de um bolígrafo (uma esfera). O traçado não possui sombreado nas laterais resultante da largura dos bicos, porque elas não possuem bicos e sim uma esfera, forma ela, sim uma foulage ( um sulco, uma cavidade) oriunda da pressão que se exerce sobre o papel suporte para a produção do escrito, face o movimento do rotação da pequena esfera que se impregna de tinta em compressão no depósito.

Hoje o trabalho por cópia do falsário se processa com maior facilidade do que o emprego das canetas de pena e tinta.

Nas observações com auxílio de lupas podemos então observar traçado característico desses instrumentos, as estrias e fibrilas que se formam ao longo da marcha e seus movimentos retilíneos e ou curvilíneos, as marcas decorrentes da extremidade da esfera metálica identificada como uma espécie de marca desprovida de tinta (tonalidade esbranquiçada) que as identificam.


Traços com caneta do tipo hidrográfica


Os instrumento possuem na sua extremidade escrevente ponta de nylon em diferentes tipos de espessuras, podendo ser, finas, médias e grossas.
Nestes traços podemos observar que se parecem muito com os traços produzidos com caneta tinteiro, onde a pena é mais justa, mais unida, moderna .

As foulages como aquelas produzidas com as canetas de massa esferográficas, inexistem, uma vez que não haverá necessidade de exercermos pressão para a produção dos traços.


Traços a lápis

Nos traços a lápis, não existem foulages, sulcagens ( sulcagem - abertura das farpas da pena) - assim não se deve confundir com as foulage, pois esta , é aquela cavidade que produzimos no suporte quando se aplica determinada pressão no ato de escrever, e daquelas cavidades que produzimos, quando exaramos escritos com caneta de ponta de esfera - as do tipo esferográficas - notadamente ( conhecida de todos nós) e pela pressão que se exerce contra o suporte - Com auxílio então de lupas ou mesmo microscópio, o traço feito com grafite nos mostra sucessivas ondas de pigmentação, orientada no sentido da direção.


Vejo assim, que os estudos desses característicos estão ligados para as análises dos hábitos específicos, diretamente marcados nos traços, quer para interpretação de índices de falsidades, quer para bem compreender outros característicos gerais e os motivos de sua variação , imprescindível se torna estar o expert familiarizado com os assuntos decorrentes do estudo constitutivo dos traços.


Desta forma, vemos da necessidade de constantes treinamentos apreciando cada peça que ainda usamos e daquelas que surgem no mercado, buscando familiarização com esses instrumentos gráficos - é a chamada prova em branco, necessária a todos que se dedicam nesta arte.


Vamos agora, realizar algumas projeções procurando mostrar alguns comportamentos de traços oriundos de alguns instrumentos.


Neste artigo para Notícias Forenses mostro alguns exemplos de comportamentos de traços produzidos por instrumentos diversos.